A escola

Colocam você em uma sala, sob o pretexto de que você precisa. Junto com você estão outras pessoas, de lugares diferentes, vindo de famílias diferentes e com desejos diferentes. Para todos, será oferecido o mesmo conteúdo, que supostamente o põe em um patamar diferente, de gente que conhece o que precisa ser conhecido. O mundo até então lhe parece atrativo, colorido, cheio de enigmas e possibilidades. Mas, aqueles corredores metaforizam um aprisionamento: o momento em que é preciso parar para aprender, como se em cada segundo da vida isto não acontecesse.
Presenciamos os mais infames absurdos sob o pretexto de que o necessário é necessário, e só. Estar na escola para mim era chato porque lá eu tinha a impressão que algo estava me separando de coisas muito interessantes, que estavam acontecendo do lado de fora daqueles portões. Para as minhas mais intrigantes perguntas, jamais a escola forneceu uma resposta satisfatória. E maior delas era: porque eu preciso estar na escola? Meu bisavô esteve, meu avô esteve, meu pai esteve. Ok, mas eu não sou eles. Azar o deles. Eu comecei a tocar um instrumento musical e fiquei muito curioso sobre o som, de onde ele vinha, como era possível que daquela caixa com cordas saíssem sonhos? Possibilidades de uma outra realidade? Meu professor de física explicou questões de ressonância, questões de movimentações de moléculas. Tudo bem, era aquilo. Mas era mais. Muito mais. E é isso: a escola não dobra a esquina, não fornece o mais. Ela lhe sugere, equivocadamente, que o cartão postal basta. A escola insinua que o saber pode estar contido, quando na verdade, saber é entregar-se ao enigma daquilo que vivemos com nossa completude. As razões e argumentos científicos são importantes, mas deles não se faz o melhor suco, porque certas traduções da vida simplesmente não cabem na palavra, na foto ou na fórmula. E como ensinar um outro ser humano sobre aquilo que precisa ser aprendido? Como dizer que, para sermos diferentes, não precisamos ser iguais? Eu ficava intrigado: eu entrava na escola e tudo estava separado: química, física e biologia. Mas, em casa, fazendo suco, tudo parecia junto. Na escola, era como se, para beber o suco, eu precisasse comer o liquidificador, botar o dedo na tomada e chupar o limão. Enquanto o suco era uma experiência integral.
O professor então, o que dizer? Me pareceu sempre uma definição interessante para “professor”: aquele que estuda tanto alguma coisa que esquece das outras. E cá estamos nós, vivendo há séculos a experiência estranha da escola, como se fosse possível reservar um momento do dia para aprender e outro para viver. Humanas, exatas, biológicas: é realmente possível existir esta divisão? Olhamos pela janela dos nossos browsers e vemos o resultado do homem forjado pela segmentação do que não pode ser segmentado: a vida. Por isso, é viável, na consciência de alguém, subentender que o habitáculo de um veículo automotor é um casulo que o protege do mundo. Por isso, é possível para um médico examinar um coração através de uma imagem e disto, abstrair que um ser humano é completamente saudável. Por isso, é factível supor que seres humanos executam trabalhos diferentes e podem ser classificados como mais ou menos importantes em decorrência disto. Por isso, é seguro afirmar que é eficaz usar os separadores nos cadernos. É realmente possível não misturar?
O mais importante numa sala de aula é aquilo que está ao nosso lado: o ser humano. Nós precisamos uns dos outros. Essa é a lição básica. E dela, deveria vir todo o resto: como podemos ser úteis uns aos outros? Tudo que não servir a este propósito, pode ser adiado. Como podemos fazer da vida uma experiência completa, segura e profunda? Como nos habituarmos ao exercício diário e contínuo de manter a saúde do mundo e a integridade do outro enquanto reflexo de nós mesmos?
Ninguém deveria ser obrigado a ir para a escola. Escolas não deveriam ter portões, nem grades. Nenhum lugar que enclausure um ser humano contra sua vontade pode ser saudável. Todos os nosso desejos de conhecimento deveriam alçar vôo, e não serem pobremente espremidos em um currículo. Somos parte de um exército cujo objetivo não é ganhar a guerra, mas manter a guerra. A escola prepara seus batalhões. E nós, silenciosamente, pagamos o pato.
Eu me mudei do interior da Bahia para a capital, sob o pretexto de ter melhores condições de estudo. Saí de uma escola com 100 alunos, para uma com 3.000. Me lembro do dia em que minha mãe abriu a porta do carro e eu vi aquela multidão de crianças e adolescentes se espremendo naquele portão cinza da Escola Teresa de Lisieux. Para mim, era como se ali uma parte de mim fosse morrer. Eu não conseguia entender como aquilo ia ser bom para mim. Eu tinha saudades de minha pequena escola, onde eu podia me pendurar no muro e ver a casa de minha vó. Ali, naquela multidão, eu entendi o que a escola queria de mim: uma espécie de silêncio, que eu a ela entreguei. Mas em troca, ela nunca me teve por inteiro. Eu sabia que ao passar por aqueles portões, se iniciava uma grande encenação, e que a realidade e a complexidade da vida abarcava aquela farsa, mas a ela não se resumia. Meu tempo livre era o tempo fora da escola. Assim como, para uma grande maioria, o tempo livre é o tempo fora do trabalho. E isso, infelizmente, diz muito sobre o lugar que o homem escolheu no mundo: esquecemos o que é a liberdade. E podemos debitar na conta da escola uma boa parte desse belo presente. Eu, em retrospectiva, posso dizer: a escola foi interessante, apesar da sala de aula. Mas me diga: podemos ser totalmente felizes apesar de alguma coisa?
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