Uma breve história da Escola de Música da UFBA

1 – Objetivo
O objetivo deste ensaio é analisar os eventos no campo da política e da cultura que foram determinantes para a criação com Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na década de 50. Em especial, este texto sublinhará as ações de Hans-Joachim Koellreutter, músico, compositor e educador musical alemão radicado no Brasil, que foi um dos principais agentes ativos naquele que iria se tornar um dos períodos mais férteis e transformadores da vida cultural baiana, cujos reflexos se estendem até a atualidade.
2 – Fontes
Este trabalho foi construído a partir de fontes bibliográficas e sobre um depoimento, dado em forma de entrevista pela musicista aposentada da UFBA Nilcea Goulart, que participou ativamente de eventos significativos sobre os quais este texto se debruçará.
3 – A Escola de Música da UFBA
Ao final da década de 40, o Brasil vivia um momento de retomada da democracia, após a extinção do Estado Novo, em 29 de outubro de 1945. A década seguinte, estendida até a ditadura de 1964, será marcada por um expansão considerável em diversas áreas vitais do país. A Bahia começaria então a reivindicar um papel mais ativo na vida política, cultural e econômica do país, marcando um posição cuja maior característica era um discurso que incitava a superação da condição de “província”, para se igualar aos grandes centros brasileiros, notadamente Rio de Janeiro e São Paulo. Antônio Risério assim resume este período:
Aquele foi, sem dúvida, um momento muito especial nas vidas do Brasil e da Bahia. Entre o final da década de 1940 e o início da de 1960, num país que velejava por mares democráticos, acelerando a sua marcha urbano-industrial, a Bahia se abriu a um considerável fluxo internacional de informações, que iria desembocar, adiante, em movimentos que, como o Cinema Novo e a Tropicália, alternariam definitivamente o panorama cultural brasileiro. Aconteceu ali, no horizonte até então acanhado da província, a coincidência entre o desejo de fazer, a existência de condições objetivas para o trabalho e a presença de pessoas capazes de tocar o barco. Além disso, a movimentação mobilizava levas geracionais diversas, do Reitor Edgard Santos ao estudante Glauber Rocha, que então disparava : ‘Está sendo derrotada na província a própria província’.” (RISÉRIO, pag.526)
 Edgard Santos foi o responsável pela criação da Universidade da Bahia, em 1946. Este evento ira marcar definitivamente a Bahia, através de um período de intensa agitação cultural. Edgard, médico de formação, “sentiu a possibilidade de recolocar a Cidade da Bahia no mapa do Brasil. Seu cacife: cultura. Era preciso que o poder econômico e o poder cultural convergissem para a superação do atraso” (RISÉRIO, pag.22). Colocado no posto pelo então Presidente Eurico Gaspar Dutra, Edgard foi o primeiro Reitor da Universidade da Bahia, “reconduzido sucessivamente no cargo, que ocupou até junho de 1961. Antes de ser Reitor, Edgard Santos foi diretor da “Assistência Pública de Saúde” por quatro anos (1932 – 1936) e diretor da Faculdade de Medicina da Bahia por 10 anos (1936 – 1946).” (NOGUEIRA, pag.354). Edgard esteve à frente da unificação das faculdades baianas independentes e escolas profissionalizantes na Universidade da Bahia:
A Universidade da Bahia foi constituída formalmente pelo Decreto-Lei n. 9.155, de 8 de abril de 1946, que determinou que as unidades de ensino superior existentes em Salvador fossem incorporadas à universidade. Data de 4.12.1950 a Lei n. 1.254, que dispõe sobre o sistema federal de ensino superior, por meio da qual todos os estabelecimentos integrados presentemente na universidade foram elevados à categoria de “estabelecimentos diretamente mantidos pela União” (compreenda-se “federalizados”), com exceção da Faculdade de Direito (federalizada em dezembro de 1956). Data de 20 de agosto de 1965 a Lei n. 4.759, que dispõe sobre a denominação e qualificação das Universidades e Escolas Técnicas Federais, por meio da qual a “Universidade da Bahia” passa a denominar-se “Universidade Federal da Bahia”. (NOGUEIRA, pag. 353)
 Era a opinião de Edgard que a cultura teria um papel fundamental na recolocação de Salvador no cenário nacional. A arte, neste ínterim, era uma ferramenta poderosa, capaz de promover mudanças na forma como a sociedade se vê, e principalmente, na forma como a sociedade brasileira iria ver a Bahia, até então atrasada economicamente por não participar ativamente do processo de industrialização na década de 30. Salvador mantinha sua base econômica nas atividades de comércio, serviços e agro-mercantis.
A Bahia não teve lugar na primeira onda de modernização urbano-industrial que se armou no país. Não só as suas elites dirigentes foram contrárias à Revolução de 1930. A estrutura econômica da província permaneceu essencialmente agro-mercantil, apesar da virada reformista que mobilizou o centro-sul do país. E a política de Vargas elegeu prioridades que se encontravam fora do raio de atuação da classe dominante baiana, economicamente voltada mais para o jogo do comércio do que para a produção. Deste modo, a região se viu condenada a velhas rotinas e atividades produtivas, ao mormaço econômico, sendo-lhe ainda destinado o papel de financiar o desenvolvimento centro-sulista , com seus recursos drenados pela arrecadação federal. (RISÉRIO, pag.36)
 Ainda segundo Risério, “a universidade brasileira, que desponta com a Revolução de 1930 (a USP é de 1934; a universidade do Rio de Janeiro, do ano seguinte), não tomou conhecimento da existência da Bahia. Premiou com exclusividade o Brasil Meridional, onde também se concentrou a investida profissionalizante.” (RISÉRIO, pag.35). Sendo assim, Edgard Santos estava correndo atrás do prejuízo.
No âmbito da música, a movimentação começa quando Koellreutter “em 17 e 18 de março de 1953 vai pela primeira vez à Bahia, a fim de proferir 3 palestras sobre estética musical (“Dialética da expressão musical”, “Impressionismo” e “Expressionismo”), no Salão Nobre da Reitoria da UFBA1, em Salvador.” (KATER, pag.18). Um ano depois, a convite de Edgard Santos, Koellreutter funda os “Seminários Internacionais de Música”.
 Estes seminários foram patrocinados pela Reitoria da UBa, em colaboração com a Escola Livre de Música Pró-Arte, de São Paulo, da qual Koellreutter era diretor. A Pro Arte era uma escola de artes fundada na década de 30:
Em 1931 Theodoro Heuberger, cidadão brasileiro, nascido em Munich, ligado à Escola de Bauhaus, que representava então as tendências mais modernas da arte européia, Frei Pedro Sinzig, O.F.M., notável musicólogo e compositor, e Maria Amélia de Rezende Martins, pianista e camerista, fundaram a PRO ARTE SOCIEDADE DE ARTES, LETRAS E CIÊNCIAS. Nos Salões da PRO ARTE, realizaram-se, naquele tempo, exposições, conferências e concertos. Theodor Heuberger fundou PRO ARTE em várias cidades brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Teresópolis) e dela foram gerados cursos de música, além dos de férias, em São Paulo e em Salvador, sempre com a liderança de Koellreutter.” (FERNANDES, pag.2)
 Este modelo de curso livre que iria ser aplicado em Salvador já era um modelo posto em prática por Koellreutter desde 1950, quando foi convidado para dirigir o 1° Curso Internacional de Férias da Pro Arte, fundado por Heuberger e primeiro do gênero no Brasil. Na inauguração deste curso, em Teresópolis (Rio de Janeiro), em 03/01/50, Koellreutter diz:
A ideia de um curso de férias com finalidade de compensar o ensino acadêmico que reduz a arte a um processo, não é nova. Já em 1945, tentei organizar um curso de verão numa fazenda perto de São Paulo. Circunstâncias, porém, que escapam à minha esfera de influência, impediram a realização da iniciativa. Lecionando nos cursos de férias em Veneza, Milão e em Frankfurt, no ano passado, assumi um compromisso comigo mesmo: o de tomar semelhante iniciativa no Brasil, ato que me parecia decisivo para a educação da mocidade de nosso país.” (KATER, pag.26)
 Sendo assim, Koellreutter dirigiu os Seminários Internacionais de Música, em Salvador, e este evento iria se repetir de 1954 até 1962, rebatizados com o nome de Seminários Livres de Música. No discurso de encerramento dos Seminários Internacionais de Música, Koellreutter se mostra em sintonia com os ideais de Edgard Santos:
É com imensa satisfação que constato o extraordinário êxito desta iniciativa cultural, êxito que ultrapassou todas as expectativas. É que a juventude da Bahia tomou em suas mãos a solução dos problemas de sua educação artística, reagindo categoricamente contra a mediocridade, o abandono, a inércia e a indiferença, lotando virtualmente as instalações dos seminários. É que a juventude da Bahia, que com entusiasmo as últimas cinco semanas, participou dos trabalhos, reclama seus direitos: não há motivo para que uma cidade como Salvador ainda careça dos meios educacionais que se encontram à disposição dos jovens nas grandes capitais brasileiras e do movimento cultural que enriquece a vida das metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro. (KATER, pag.33)
 E neste mesmo discurso, a semente do que seria a Escola de Música da UBA é lançada:
O encerramento dos Seminários constituirá, portanto, a pedra fundamental do Setor Universitário de Música, que imediatamente iniciará suas atividades, garantindo assim aos jovens da Bahia a continuidade do trabalho ora iniciado. Graças ao espírito realizador e à larga visão do Dr. Edgard Santos, Ministro da Educação e Cultura2 e do Dr. Orlando Gomes, Magnífico Reitor da Universidade da Bahia, iniciaremos a primeiro de Setembro a execução de um importante plano educacional que visa a criação de um estabelecimento de ensino musical subordinado a Universidade da Bahia, estabelecimento que não terá semelhante em todo continente latino-americano. Funcionará a partir dessa data os cursos essenciais do estudo musical ou sejam Teoria, Solfejo, História, Estética, Harmonia e Contraponto, Composição, Piano, Violino, Música de Câmara e Análise, sendo que o setor será gradativamente ampliado de acordo com seu desenvolvimento. Criaremos uma Orquestra Universitária e iniciaremos um movimento coral, organismos destinados a proporcionar aos nossos jovens o conhecimento das grandes obras primas da literatura musical”. (KATER, pag. 34)
 A esclarecer, a ousadia de Edgard Santos se aplicou também ao teatro e a dança. Ele fundou as duas primeiras escolas de nível universitário destas artes no país: para dirigir a Escola de Teatro “convidou o médico por formação, artista plástico e cenógrafo pernambucano Eros Martim Gonçalves, que influenciou toda uma geração de atores e diretores baianos durante sua permanência no cargo (1956 – 1961). Alguns de seus alunos se tornaram posteriormente grandes atores, como Othon Bastos, Helena Ignez e Geraldo Del Rey. Glauber Rocha admitiu diversas vezes a influência de Martim Gonçalves em sua obra cinematográfica.” (NOGUEIRA, pag.358). Para a Escola de Dança, convidou a polonesa Yanka Rudska e o alemão Rolf Gelewski. Para dirigir o Museu de Arte Moderna, convidou Lina Bo Bardi.
Além destas duas escolas e o Museu, em 1959 Edgard também criou o CEAO – Centro de Estudos Afro-orientais, dirigido pelo pensador português Agostinho Silva:
Objetivando o estudo e a pesquisa de idiomas e culturas de civilizações africanas e asiáticas – especialmente voltado ao entendimento do contexto cultural afro-brasileiro – o CEAO, órgão suplementar da Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas, estabelecia um canal de diálogo entre a universidade e a comunidade afro-brasileira. Dentro dos muros da universidade, portanto, abriu-se um espaço de debates sobre a cultura e a religiosidade popular da Bahia, que incorporava toda a “cidade paralela”dos romances de Jorge Amado, das fotografias e livros de Pierre Verger, dos trabalhos de Carybé e Mario Crávo Junior e das músicas de Dorival Caymmi. Em uma Bahia que mantinha fortes preconceitos raciais, Edgard Santos demonstrou, na criação do CEAO, o grau de ousadia de suas ações. (NOGUEIRA, pag.359)
 Voltando ao contexto musical, a presença de Koellreutter, aliado ao caráter inovador dos seminários e da criação da Escola de Música da Uba, atraíram um grande número de professores europeus:
Da Suíça, além do “polivalente” Ernst Widmer, veio também o pianista Pierre Klose; da Itália, o violinista Antonio Ardinghi e o violoncelista Pierro Bastianelli; e da Alemanha, procedeu a grande maioria: o flautista Armin Guthman, os oboístas Georg Meerwein e Gerald Severin, os clarinetistas Georg Zeretske e Walter Endress, o fagotista Adam Firnekaes, o trompetista Horst Schwebel, o trompista Volker Wille, a harpista Ursula Schleicher, o violista Johann Georg Scheuermann, os contrabaixistas Gunter Goldman e Peter Jakobs, e o regente Johanses Hoemberg. Outros europeus que, como Koellreutter, já viviam no país, também foram convocados para a nova escola, dentre eles, a flautista Ula Hunziker (Suíça), o trompista Nikolau Kokron (húngaro), os violinistas George Kisley (húngaro) e Lothar Gebhardt (alemão), os violistas Frederick Stephany (iraniano) e Edith Perényi (húngara), o violoncelista Walter Smetak (suiço) e o trio Benda (suíços: Lola, violinista; Dora, violista; e Sebastian, pianista). Além desses músicos, que atuaram como professores, outros europeus vieram compor o quadro da Orquestra Sinfônica da Universidade. (NOGUEIRA, pag.357)
 Destarte, podemos imaginar o impacto de tamanha movimentação em uma cidade como Salvador, considera uma província. Do depoimento de Nilcéa Goulart, pianista aposenta da UFBA, podemos detectar o entusiasmo, ainda presente em suas palavras, ao lembrar dos acontecimentos daquela época:
Criaram os seminários livres de música e vieram professores estrangeiros, como Sebastian Benda, de piano, Lola Benda, de violino, Sonia Borges, cantora, Smetak, Pierre Klose, Ernst Widmer. Vieram todos estes professores pra cá pra passar um mês, para os seminários internacionais. Mas o resultado foi tão bom, que vieram estudantes do Brasil todo, estudantes que ficaram famosos depois, como Carlos Alberto Fonseca, Manoel Veiga, Carlos Veiga, Henrique Gregori. Vieram todos pra cá pra fazer um mês de curso. E depois gostaram tanto, deu tanto resultado que Koellreutter, que foi quem criou isso, e veio como regente, foi ficando. Eu sei que foi muito bom o resultado, o seminário ficou famoso e eles mudaram para ser anual. E de anual, virou o seminário livre de música, não seminário internacional, que foi o primeiro, por causa dos professores todos de fora. E aí os estudantes voltaram para fazer o curso normal da escola. Carlos Alberto Fonseca criou o coral, depois o madrigal, que ficou famoso também, cantou até no exterior. Tudo criado por eles. E aí foi aumentando essa fama, vieram outros estudantes. Carlo Lacerda, que era estudante daqui, e era muito bom, fez o curso de maestro e se formou nessa época com Koellreutter. E eu me matriculei pra estudar piano, porque já era formada pelo instituto de música, que era da Universidade Católica. Eu queria aprender mais algumas coisas, queria aprender harmonia moderna, teoria com Ernst Widmer. E aí estudei com Pierre Klose. E fiquei lá fazendo parte dessa turma. Comecei a fazer música popular, ouvindo Carlos Lacerda. Todos eram de música erudita e gostavam e faziam música popular, uma coisa que era completamente errada no Instituto de Música [da Universidade Católica]. No Instituto de Música não deixavam a gente tocar música popular. Se eu chegasse lá na casa da minha professora, que era Francisca Barros, e tocasse uma música popular ela saia doida lá de dentro mandando parar. (GOULART, depoimento.)
 Nilcéa continua:
[Koellreutter] falava um português maravilhoso. Ele podia dar aulas de português, falava melhor que os baianos. E ele era muito atento, a todos os pormenores. Tanto que eu estava na escola de dança e ele me procurou pra dizer que eu deveria abraçar a profissão de correpetidora. Ele conversou com Pierre Klose, e Klose me deu uma declaração, dizendo que eu estava apta para a profissão de correpetidora, e eu então fui trabalhar na escola de dança, como pianista da escola de dança. Se não fosse Koellreutter, eu seria professora de piano até hoje. Graças a ele me especializei naquilo. Eu acho que Koellreutter era uma pessoa maravilhosa, um ótimo maestro. Os concertos dele eram maravilhosos, e ele sempre aceitava todas as coisas modernas. A plateia não entendia nada, ele botava rádios junto do piano, e tocava o rádio, e puxava as cordas do piano, umas coisas bem interessantes.
 Como era de se esperar, junto com a movimentação acadêmica, veio também uma grande movimentação cultura e intelectual que aos poucos transformava Salvador. O depoimento de Caetano Veloso se soma ao de Nilcéa:
Lembro do pianista David Tudor, em 1961/62, apresentando peças de John Cage no Salão Nobre da Reitoria da Universidade da Bahia – aquele prédio gozado do bairro do Canela que sempre me parecerá maravilhoso -, a sala cheia, o professor Koellreutter observando. Uma das composições previa que, a certa altura, o músico ligasse um aparelho de rádio ao acaso. A voz familiar surgiu como que respondendo ao seu gesto: “Rádio Bahia, Cidade do Salvador”. A platéia caiu na gargalhada. A cidade tinha inscrito seu nome no coração da vanguarda mundial com uma tal graça e naturalidade, com um jeito tão descuidado, que o professor Koellreutter, entendendo tudo, riu mais do que toda platéia. (VELOSO, in: RISÉRIO, apresentação.)
Antonio Risério esclarece:
Koellreutter trouxe, para uma cidade extraordinariamente musical, em termos populares, o repertório erudito, revisto pela ótica da vanguarda, num verdadeiro exercício de estética sincrônica. Uma injeção de Bach, Schoenberg e Cage na terra do samba-de-roda, das claras e refinadas canções praieiras de Dorival Caymmi e do violão de João Gilberto.” (RISÉRIO, pag.528)
 Muitos concertos marcantes dirigidos por Koellreutter aconteciam em Salvador, como a primeira audição brasileira (em 1959) da Missa em Dó Maior, de Schubert ou a estréia brasileira (em 1958) do Primeiro Salmo e do Sobrevivente de Varsóvia, de Arnold Schoenberg.
Havia também os concursos de música, eventos que influenciaram profundamente toda uma geração de músicos e compositores, a exemplo do Grupo de Compositores da Bahia:
O fomento às atividades composicionais na Universidade da Bahia, estimulante do desenvolvimento do ensino de composição que conduziu à formação do Grupo de Compositores, teve seu “marco inicial” no Concurso Nacional de Composição realizado em 30 de novembro de 1965, com o patrocínio do Ministério da Educação e Cultura, da Universidade da Bahia e do Instituto de Cultura Hispânica, no qual foram premiados Nikolau Kokron (A Grande Cidade, 1° prêmio) e Milton Gomes (Nordeste, 2° prêmio). Daí em diante, registra-se a formação do Grupo em abril de 1966, então com dez membros: Antônio José Santana Martins (Tom Zé), Carlos Rodrigues de Carvalho, Carmem Mettig Rocha, Ernst Widmer, Fernando Cerqueira, Jamary Oliveira, Lindembergue Cardoso, Milton Gomes, Nikolau Kokron Yoo e Rinaldo Rossi. (NOGUEIRA, pag. 352)
 Neste contexto, em seu depoimento Nilcéa Goulart nos traz dados interessantes:
Tinha concertos maravilhosos, você nem acreditava que era a Bahia. E aí depois vieram os concursos de piano, Koellreutter se envolvia com tudo isso, não existia nada sem a aprovação dele. Começaram a fazer essas cursos e aí vieram Cristina Ortiz, Arthur Moreira Lima, que venceu um concurso aqui com 15 anos de idade. Luizinho Eça, veio para cá, tocou num concurso de piano e namorou com Sonia Goulart, que era uma grande pianista brasileira. Ele tava todo apaixonado, todo romântico, e foi tocar a balada de Chopin, se entusiasmou e inventou [improvisou], foi desclassificado por causa disso. Ele tocou essa balada e começou a se entusiasmar, foi enfeitando, enfeitando. Todo mundo espantado na plateia, o juri mais espantado ainda, e ele foi desclassificado. Mas que fez uma coisa linda, fez! (GOULART, depoimento.)
 E vale registrar que toda esta movimentação musical acontecia de forma integrada com as outras artes:
Tem outra coisa interessante: a gente sempre ficava ali na escola de música, nos fundos, onde tem alguns prédios menores, e quem ia pra lá era o pessoal do cinema: Geraldo Del Rey, Antonio Pitanga, cinegrafistas, etc. Vivam com a gente ali, conversando, falando sobre cinema, era tudo misturado. Era música, teatro, todo mundo ali: Nilda Spencer, [Helena] Ignez, que era namorada de Glauber Rocha. Na ditadura diminuiu. Mas naquela fase ali, era uma maravilha. Todo mundo dizia o que queria, todo mundo conversava, todo mundo cantava. Todos os músicos misturados com esse pessoal. Tinha uma lanchonete e várias mesas cheias de gente, e aí tinha uma turma que ia pras salas, começava a tocar, e todos iam atrás, os eruditos, populares, todos juntos. (GOULART, depoimento.)
 Koellreutter, de certa forma, foi o centralizador destas ações:
Todo essa estrutura ficou aqui. Mesmo hoje, com todas as falhas da escola de música [da UFBA], mas existe tudo isso, escola de dança, de teatro, tudo isso por causa daquela época de Edgard Santos, que convidou Koellreutter, e Koellreutter começou todo este movimento aqui. Foi graças a esse movimento que eu tive a minha profissão. E assim como eu, várias pessoas. (GOULART, depoimento.)
 Em 1959, Koellreutter passa a dividir a direção da Escola de Música da Uba com Ernst Widmer, que assume interinamente a função depois que Koellreutter retorna a Alemanha em 1963, onde dirige o Departamento de Programação Internacional do Instituto Goethe de Munique. Sobre este período, Risério esclarece:
Edgard, que fora nomeado por Eurico Dutra, deixou a reitoria em 1961. Jânio Quadros não quis a sua permanência. Irritado, o então Deputado Antonio Carlos Magalhães redigiu um telegrama de protesto ao Presidente, que os Correios se negaram a transmitir, mas os jornais da época publicaram: “A mesquinharia de seu gesto dá a medida do seu caráter”. A partir daí, começou a degringolada. Sem a sustentação de Edgard, alvo da imprensa reacionária e do esquerdismo universitário, Martim Gonçalves saiu de cena. Sob uma chuva de insultos – chamada, entre outras coisas, de lésbica, “puta”, comunista e corrupta – , Lina Bo Bardi preferiu voltar para São Paulo, onde projetou o MASP. Por fim, em 1963, Koellreutter passou o posto adiante.” (RISÉRIO, pag.531)
 Ainda sobre este momento, Ilza Nogueira completa:
Quando se concretizaram as suas [de Edgard Santos] principais iniciativas nas artes, o seu trabalho na direção da universidade foi duramente questionado. Seus adversários localizados nas unidades de maior prestígio não admitiam a transferência de recursos e poder para setores emergentes, alegando desvio das funções e das necessidades convencionais da instituição. Esses desentendimentos atingiram o auge em meados de 1961, quando Edgard Santos, mais uma vez, encabeçava a indicação do Conselho Universitário ao cargo de reitor, tendo sido, no entanto, preterido pelo presidente Jânio Quadros, que nomeou Albérico Fraga, o segundo nome da lista. (NOGUEIRA, pag.355)
 A partir daí então, e com a breve chegada da ditadura, todo este cenário irá se modificar, com a chegada incisiva dos tropicalistas, do Cinema Novo e de outros personagens. Mas todos seriamente influenciados por este período da história, onde uma conjunção espetacular de intenções e ações construiu um momento ímpar de ruptura, criação e transformação, com consequências que alcançam os dias de atuais.
4 – Conclusão
Se debruçar sobre este período da história baiana e brasileira, mesmo que de forma breve, nos leva a perceber como é fundamental a pesquisa, para construir uma visão de mundo que se pauta no passado, mas contribui fortemente na forma como o presente é visto. Pessoalmente, como baiano e músico, que conviveu no passado recente com algumas das estruturas criadas por Koellreutter, esta pesquisa trouxe elementos fundamentais para melhor elaborar as conclusões (que não são conclusões, pois estão sempre movimento) sobre a Cidade de Salvador que vejo hoje e todos o seus intricados fenômenos culturais. Koellreutter era um estudiosos dos fluxos e suas ações eram, acima de tudo, fiéis a um “espírito de humanidade”:
Foi uma época da minha vida que abriu minha cabeça. Eu era uma pessoa do interior, não tinha a cabeça aberta. Esses acontecimentos mudaram a vida de muita gente na Bahia, dos músicos, tenho muito a agradecer a Koellreutter. Tive com ele em São Paulo, durante uma homenagem a ele, agradeci por tudo. Foi ótimo! Levei flores pra ele, e ele riu! Além de muito preparado e atento, Koellreutter era uma pessoa humana, apesar de ter aquela aparência séria. Abracei ele, e foi a última vez que o vi. Um tempo depois, ele morreu. (GOULART, depoimento.)
 As flores, entregues por Nilcéa, simbolizam uma homenagem que todo baiano, de certa forma, presta a Koellreutter e seus pares, mesmo sem saber. Porque a história é assim: querendo ou não, vivemos nela, e dela fazemos parte.
5 – Fontes
FERNANDES, José Nunes. História da Educação Musical Brasileira: o alto nível de ensino musical e o pioneirismo do Curso Internacional de Férias Pro Arte de Teresópolis (RJ) – (1950 a 1989). In: Anais – XVII Encontro Nacional da ABEM. São Paulo: 2008.
GOULART, Nilcéia. Depoimento gravado pelo autor. São Paulo: junho/2012.
KATER, Carlos. Música Viva e H.J. Koellreutter: movimentos em direção à modernidade. São Paulo: Musa, 2001.
_______________ (org.). Educação Musical: Cadernos de estudo, nº 6. Belo Horizonte: Atravez/EMUFGM/FEA/FAPEMIG, 1997.
NOGUEIRA, Ilza. A criação musical em diálogo com o contexto político-cultural: o caso do Grupo de Compositores da Bahia. In: Revista Brasileira de Música. v.24, n.2, p. 351-380. Rio de Janeiro: Programa de Pós-graduação em Música – UFRJ, 2011.
RISÉRIO, Antonio. Avant-garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1995.
_______________. Uma história da Cidade da Bahia. Rio de Janeiro: Versal Editores, 2004.
1 A Uba (Universidade da Bahia) só viria a se chamar UFBA em 1965. Mas, opto por respeitar o texto citado, e por isso, a duas nomenclaturas (UBA e UFBA) irão se alternar no texto.
2 “Neste período, uma breve interrupção [de Edgard como reitor] foi ocasionada pela sua indicação ao Ministério da Educação no segundo governo de Getúlio Vargas. Edgard Santos foi Ministro no período de 7 de junho de 1954 até a morte do Presidente, em 24 de agosto.” (NOGUEIRA, pag.354). Retornou à função de Reitor em seguida.
* Trabalho de conclusão para a disciplina optativa “A pesquisa do patrimonio histórico musical brasileiro (século XVI a XX)”, Prof. Paulo Castagna, UNESP, 2012:
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