Uma carta para meu filho, dentro de uma garrafa pet vazia.

Escrever é delinear no invisível aquilo que assenta, que conecta chão e pé. No apático corroer das horas, vamos nós deitar as palavras no chão frio do possível, para assim dizer: que corra o rio. E este é um texto sobre causalidade, sobre como a vida se equilibra na produção de sentido: se eu faço, eu sou.
Vivemos em um mundo, que acima de tudo, valoriza as conexões. Hoje, viver é se conectar. Quem não se conecta, como o nomeamos? Mais crucial do que se conectar, é fazer as conexões certas, diria a cartilha do mundo moderno. Afinal, como fazer valer nossa presença na terra? Já temos os números que nos definem: RG, CPF. Siglas que nobremente nos validam. Vivemos, sustentamos nossos desejos, nos colocamos em uma posição a mais vantajosa possível, nos classificamos mentalmente de acordo com o carro de dirigimos, a casa onde moramos. E calmamente nos realizamos na diferença ante o outro. Eu faço sentido se trabalho, se o fruto do meu trabalho me insere na roda das obrigações que caracterizam um homem que consome aquilo que lhe convém, não porque precisa apenas, mas porque assim é a exigência moderna. A criança suja rastejante é um inconveniente. O trânsito encalacrado é um fator gerador de consternação. O trabalho que não traz o retorno financeiro desejado de acordo com sua ideia mental de sucesso é um constante motivo de irritação. E se você não trabalha, não consome e não se engaja? O que é ser livre hoje? É poder pagar contas? É poder sustentar vontades? É atingir um certo nível na carreira? Quem não vê sentido, como o nomeamos?
A comunicação se tornou uma característica marcante hoje. Imagine uma pessoa no ano de 1946, a ouvir um visitante dos dias atuais: em 2011, todos se conectam na velocidade de um movimento do dedo indicador; conseguimos ver pessoas em tempo real, a milhares de quilômetros, conversar com elas; temos informação sobre o mundo todo, a qualquer momento, a custo razoavelmente baixo; podemos ouvir música em um aparelho de bolso que carrega 50 discos ou mais; assistimos filmes em três dimensões; os bancos funcionam a partir de nossas casas; os veículos são muito bonitos, e podemos dirigir orientados por aparelhos via satélite, que nos dizem onde estamos e pra onde devemos ir; os aparelhos hospitalares nos dizem em horas tudo que se passa no nosso corpo; tiramos fotografias com um aparelho que pode armazenar milhares de fotos, acessíveis a qualquer momento, sem usar papel. 2011 é a perfeição E mesmo assim, a criança suja rasteja no meio fio, brincando com uma garrafa pet vazia.
Então me pergunto, seria este um belo futuro? Colocamos nossa capacidade criativa em modo de alta-velocidade, e assim, não conseguimos enxergar a face do outro. Você consegue ver a face de alguém, dirigindo a 150 por hora? Nos colocamos na incômoda posição de ter sempre algo a provar, e assim nos esquecemos de saborear a paz do simples ato de ser. As crianças nascem, e a ordem para elas é clara: acelerar. Mas para onde? Se uma criança rasteja com uma garrafa pet? Para onde ela vai com essa garrafa? Para onde o homem vai, com tanta velocidade, tanta inovação, tanta agilidade? Hoje tem gente que não vive sem celular, tem gente que não vive sem computador, tem gente que não vive sem Facebook, tem gente que não vive sem GPS, tem gente que não vive sem Playstation. E tem gente que não vive porque não come, porque não recebe assistência médica, porque não encontra uma casa, porque não tem sapatos, porque não toma banho há meses, porque não sabe ler, porque não encontra emprego. Tem gente que não vive sem uma garrafa pet vazia para brincar. Uma garrafa de Sprite vazia. E assim vamos todos juntos cobrindo nossos buracos com chiclete.
Em que momento da história o homem perdeu contato com a realidade? Em que momento da história a infelicidade de um tornou factível a felicidade do outro, e isso passou batido? Hoje tudo passa batido. Porque essa é a ordem: acelerar. Se eu puder, direi a meu filho: puxe o freio de mão. Observe. Quando o rebanho estiver todo indo para apenas um lado, olhe pro outro lado. Observe. Não acelere sem antes se certificar que seus dois pés estão no chão, fincados na base sólida do discernimento básico: a felicidade de nenhum homem vale a infelicidade de outro. Vou dizer a ele: não adianta você competir, não adianta você vencer, não adianta você ser qualificado, não adianta você ter dinheiro, não adianta você ter mil amigos, não adianta nada disso, se você não for um ser humano totalmente consciente da sua condição de fragilidade, e totalmente consciente da sua similaridade com o outro, seja ele quem for. Se sentir deslocado no mundo é um brinde da tripulação para quem voa na nave terra. Não se preocupe, eu lhe direi.
Mas andar pelo planeta hoje é atestar o fracasso do homem em conseguir acessar o simples. Não conseguimos. Fomos a lua, e a lua está lá, rindo de nós: pra quê ter ido tão longe, se tão perto estava o que valia, e nada foi visto nem percebido?
Para muitos hoje o futuro promete, porque a tecnologia está ficando cada vez mais barata. E eu acho que em nada promete, porque mais barata que a tecnologia, ficará a vida.
Na minha frente agora, o Facebook. Há minutos, uma ligação da operadora de televisão, me oferecendo um plano mais barato, para uma televisão de plasma que não tenho. Soa coerente pra eles que eu mude meu plano para HD, tendo uma televisão de tubo. E este é o problema: talvez hoje tudo soe coerente demais. E antes que alguém pergunte, não escrevo esse texto porque é meu filho que rasteja com a garrafa pet. Mas é como se fosse. Por isso, o texto. Por isso, essa dor. Por isso, esse sentimento de desencaixe.
Lá fora, o tradicional temporal de fim de tarde na cidade de São Paulo. Em 1946, garantido: menos velocidade, talvez mais paz.