Sertão marfim: a chuva que somos nós

Hoje estava passando por uma das maiores estações de São Paulo e senti o drama da humanidade. Todos ali tentando ser felizes, sem exceção, cada um a seu modo. De repente, vi que estamos todos no mesmo barco. E ali, naquele momento, me senti no sertão. Olhei para todos aqueles desconhecidos e pensei: somos todos fortes, estamos lutando.

Só entende o sertão quem nele mergulhou. Eu, quando tinha uns nove anos, morava no agreste da Bahia e saia com meu pai, que era fiscal agrícola do Banco do Brasil, a percorrer as estradas e visitar as fazendas e roças para aferir se os empréstimos que o Banco concedia estavam sendo bem empregados. Eu adorava olhar pelo vidro de traz da brasília amarela de meu pai, e só o que restava era poeira marrom. No meio daquele vasto deserto, gente vivia e sorria. Isso me intrigava. Lembro de uma senhora que vivia sozinha, numa casa de barro. Seus filhos todos a deixaram, marido idem. Ela estava sentada na porta da casa, olhando para o vazio, meditando sem saber. Acariciou meu rosto, sorriu e disse: meu filho, Deus quis assim. Fui embora olhando pelo vidro de trás e ela foi engolida pela poeira, ainda sorrindo. E esse é o sertão, um lugar que você não escolhe: ele escolhe você. E inexplicavelmente, por mais longe que vá, você fica com ele no coração. Quando compus uma música chamada Jasmins, eu coloquei uma frase inicial “vem ver, flor que cresce no varal”, porque no sertão o varal é a cerca de arame. E pensei naquela senhora, como se dissesse a ela: vem ver a beleza, mergulha nessa flor e voa.

O sertão é algo que se aloja na sua alma, para nunca mais sair. No ruído, na correria, na selvageria de São Paulo eu fecho os olhos e lá estou: no campo seco e marrom, fitando as árvores esqueléticas, o sol que faz a madeira assobiar, o buraco que era açude, a estrada cheia de pedras arredondadas. Fazer um disco falando sobre o sertão é mergulhar neste balé novamente, trazer à tona que somos fortes e que, apesar de tudo, não há outra opção do que ter fé. E de repente, no meio daquele sertão, a noite cai, você olha para o céu mais estrelado que você já viu e pensa: uma chuva de estrelas. A chuva que não vem durante o dia, vem a noite, não molha a terra, mas molha a alma. E traz uma esperança para o dia seguinte. Essa certeza que as vezes perdemos vivendo nas metrópoles, no sertão é onipresente. Só isso explica o sorriso daquela senhora.

E neste momento, o mundo está se perguntando onde está o caminho, o que fazer pra ser feliz. As pessoas estão se queixando porque não podem comprar presentes no natal, porque não podem trocar de celular, porque não podem jantar fora. E toda vez que penso nisso, me surge na mente aquela senhora: ela “vem avisar que sonhar é bom”, e sonhar com a terra dando flores. Porque o sertão é assim, quando chove tudo fica verde numa velocidade impressionante. Ao mesmo tempo em que a terra é seca e sofrida, ela está pronta para florir rapidamente, o florescer está dentro dela, guardado. De repente, tudo está verde. E tudo fica seco de novo. E você pensa: o verde está lá, o verde está dentro de mim. Você pensa: eu sei o que essa terra pode dar. Dizem que o sertão já foi mar, e eu digo: o sertão é mar. Um mar de retidão, de força. De beleza, de visceralidade. Que celebra o santo da fartura, São João. Que pede a Ele: traga o molhar, traga alegria, traga luz para o céu escuro com seu balão, música para o silêncio, calor para o frio. Porque a vida é dura, e sempre será, em qualquer lugar.

No sertão, há os que fogem para as cidades maiores, mas em seus olhos não há como deixar escapar o brilho quando ressoa no ar a palavra mágica: sertão. Nós nos reunimos em um estúdio, plugamos nossos instrumentos e abrimos nossos braços para a chuva de estrelas: que venha o verde de dentro, que floresça a alegria e a essência de cada de um de nós através da música. Isso é o sertão marfim. Uma celebração de força, amizade. Um grito que diz: estamos aqui, a vida é dura, o sofrimento é grande, mas somos fortes e vamos até o fim, com amor pelas coisas simples, celebrando quem somos e de onde viemos para que quem nos escute também floresça, assim como a terra mais maltratada deu sua flor. Porque música é chuva. Que ela nos eleve, que ela seja o balão no céu, o sonho. A nosso modo, somos chuva. E é disso que o sertão marfim fala: que sejamos chuva, que façamos florescer a beleza no mundo, que não nos deixemos levar pela força devastadora da natureza: façamos parte da natureza.

Minha mãe, quando eu menor, visitava e ajudava uma moça cega chamada Marina, que morava há alguns quilômetros da cidade onde eu vivia. Uma vez perguntei se ela não gostaria de enxergar, mesmo lá fora sendo tão seco, vazio e devastado. E a resposta dela eu jamais esquecerei: meu filho, seco já é dentro de mim, não preciso enxergar não. Ela apalpava e cheirava o saco de fumo que minha mãe levava, dava uma gargalhada linda, feliz. A alegria para ela era aquilo: o cheiro do fumo. E eu as vezes, quando estou triste, tento cheirar minhas mãos. A felicidade está ali, em algum lugar. Estava para Marina, era possível para ela. Então é possível para todos nós. O marfim é isso, o branco com uma pitada leve de amarelo. A prisão com uma pitada de vida. A perfeição com uma pitada de terra. Quando você escutar Sertão Marfim, estará escutando nossas almas. Estará escutando Marina, a terra, o verde, a vaquejada, a poeira, a água barrenta. E além disso, estará escutando força e resignação. Somos fortes: na cerca de espinhos fracos e sozinhos, nasce o tempo de abrir. Somos sementes, e a música, a chuva. O sertão é um lugar onde a vida é exaltada justamente porque lá, viver requer muita força. A vida é rara, mas floresce com uma gota de chuva. Viver é essa ciência, olhar para o seco e acreditar que lá existe a vida, abundante. Olhemos para nosso seco. Nossa música é nossa forma sincera de te dar essa gota de água para que você cultive seu próprio jardim de jasmins, e nele, alce vôo para a felicidade: lágrima que brota do fundo do poço da alma.