Playboy

Pegue esse seu corpo e esconda. Não torne comum o ouro, não faça da curva uma reta perdida. Pegue esse seu corpo e coloque algo por dentro, para que o desejo seja mais que um susto. Tenha a compostura de permitir a seda, de flertar com o sopro poético, de criar a atmosfera perfeita para os planetas divagarem sobre a pura possibilidade da surpresa e suas delicias.
Pegue esse seu corpo e suma, junto com esse seu olhar tosco de deusa desarticulada. Você envergonha Prometeu com sua falta de persistência e destrói o segredo da força e da pele, pior: do cheiro da pele. Porque sua tez é sutil como o asfalto, jogada dessa forma tão desprotegida e cruel.
Por favor, pegue esse seu corpo e pense a eternidade, desconstrua a ilusão do desejo com o sorriso, seja consciente do seu estado de anjo, não porque é personificação da bondade, mas porque pensa num mundo de seres leves. Os humanos se apaixonam, mas o sexo entre eles é uma dança, uma missa quente, suor bendito entre o silêncio das palavras e dos gemidos. Esqueça esse corpo, pare de inflar o que já nasceu flutuando, pare de sufocar o detalhe, a mulher. Quem é você?
Pegue esse corpo e esconda. Esconda, esconda. Deixe as lacunas vazias porque a natureza é um jogo de paciência e leveza. Não vou citar a interioridade, não é nem isso. Não chega até isso. É antes. Se valoriza pela falta, não pelo excesso.
Pegue esse seu corpo e suma, converta sua opulência em sapiência. Não é uma questão de valores. Seu corpo é um barco de um passageiro só. Pegue esse seu corpo e não carregue tantos passageiros incógnitos. Você não é mulher, nem feminina. Feminino é o detalhe do canto da boca, do ajustar dos olhares e do andar desconcentrado. Isso que você mostra é carne morta, sem potência. Tem cor de epiderme, mas é só.
Pegue esse seu corpo e não deixe que manipulem suas imperfeições, porque o que você tem de imperfeito é o que te define melhor. A perfeição é oca, um chiste. Por favor, pegue esse seu corpo e eleve a uma condição de templo, não deixe que ele morra, porque agora você é só isso, uma morte. Esqueça esse formol, coloque um leve batom e seja mulher. É simples, misterioso, leve e ardilosamente oculto.
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