O que é felicidade, meu amor.

Existem pessoas que vieram a este mundo para semeá-lo com beleza. Passeando pelos nossos desertos esbarramos com uma esperança, um sopro frio na tez avermelhada pelo incansável calor de nós mesmos. As moléculas vibram num balé sutil, e assim nos esbaldamos nesta água límpida que é a música, este reflexo brilhante e fluente que paira sobre a areia escaldante. De repente, a sede cessa. Seu corpo se eleva e relaxa. Seu coração se espreguiça. As notas tocam sua pele e você num passe de mágica, parece saber o caminho. Certos homens se escondem atrás das dunas e nos presenteiam com brisas leves. Um Jobim. Ele vem ao mundo, dá meia-dúzia de sorrisos e singelamente acaricia as teclas certas do piano.

Ali está você, no cinema. E dali vem essa música. Você foi semeado com uma uma paz. Esse ser humano nasceu, viveu e se foi. E nos deixa não um legado, porque a palavra legado é pesada. Não é isso. É algo mais leve, um segredo no ouvido. Jobim sussurra e com a leveza de um perfume sutil, nos dá um alento. E este alento roda o mundo, dança no salão com todas as moças e todos os rapazes. Encanta, e como canta, apela por uma paciência, uma calma: as notas no lugar certo, com imensa delicadeza. É como andar em direção a porta e este sorridente cavalheiro se antecipa, lhe dá passagem, um ato de gentileza. A música de Jobim é esta gentileza que passa pelo seu corpo, lhe pede pouco e lhe dá tanto. Uma música complexa, cheia de acordes, cordas, coros. Mas veja bem, a beleza é assim: você olha ao longe, ela se esquiva elegante, sabe que está sendo observada. É simples, ela te toca, você amolece. A questão não é saber tudo para fazer igual. A questão é saber o suficiente, e ter elegância para apertar os botões do paletó, para folgar a gravata e carregar o estojo do violão no aeroporto.

E veja só: o vistoso rapaz é brasileiro. Você saí do shopping center onde está o cinema, lá fora está um calor, as motos se amontoam, o ruído da rua é impiedoso. Mas você internamente está sentado nas almofadas que o Senhor Jobim colocou no seu coração. O que os olhos perseguem lá fora, o sangue correndo quieto como um acorde em dois por quatro silencia. Ganhamos este presente: nascemos neste pedaço de terra, o mesmo onde nasceu este moço. Ele e eu, nos encaixamos de alguma forma, como um Lego. Eu sei dessa brisa, eu sei desse sol, eu sei dessa calma. Agradeço profundamente este presente, Mister Jobim. É como se eu atravessasse um lago denso pisando nessas pedrinhas que são suas mãos no piano. Viver é esta brincadeira.

O cinema vazio, quatro pessoas. E você apenas assiste embasbacado a ciência de viver pra não sofrer. Sinatra sentado, se pergunta: como pode, tanta elegância? Nascer brasileiro é coisa para poucos. Assim como é para poucos a consciência do que é ser brasileiro. Paciência.

Stan Getz improvisa. O piano entra, naquela simplicidade desconcertante. A seu modo Jobim foi mestre na ciência do viver: cada nota no seu lugar, nem antes, nem depois. E eu que era triste, descrente deste mundo, encontrei esta felicidade em forma de música, sentado numa poltrona de cinema. O cinema, sempre tão generoso.