O barqueiro.

Na maior escritura Hindu, o Bhagavad Gita, diz Krishna a Arjuna: sábio é aquele que não se abala, nem na dor, nem na felicidade. Quantas vezes na vida colocamos nosso ideal mais alto dentro de uma equação, totalmente fundamentada em escolhas racionais que se baseiam em lugares, ganho, posição social, proximidade familiar, etc. Ouvimos algumas vezes sobre uma possível idade de ouro para a humanidade, e automaticamente somos levados a construir mentalmente uma sociedade completamente perfeita, livre de toda a maldade. Mas será que essa imagem de plenitude isenta de mal representaria realmente um mundo perfeito? Seríamos capazes de viver absortos na mais absoluta e intocável ausência de maldade, mergulhados na felicidade total? Eu acredito sinceramente que não.
Desconstruir é necessário para reconstruir. A pergunta é: qual felicidade procuramos? Diz-se que o prazer é o intervalo entre duas dores. E a verdade é que é muito mais fácil nos desviarmos do caminho da retidão espiritual quando estamos envoltos na felicidade que o mundo exterior nos presenteia. Quando estamos rodeados com a beleza da natureza, com a tranqüilidade de ruas que não oferecem perigo, quando estamos a degustar a perfeita refeição, quando estamos a sentir na pele o sol tenro da tarde serena junto àquela pessoa que amamos, gozando de perfeita saúde e com um belo sorriso no rosto. Uma voz chama interiormente: “é isso”. Então, seu coração se enche de paz. Mas até quando dura essa paz? Até quando dura a tarde, senão até que se inicie uma noite? Temos a tendência nata, dada nossa origem ocidental, a nos entregar aos momentos de felicidade de olhos fechados, porque assim nos foi dito por nossa cultura, que essa é a meta, e que se deve lutar para manter isso de todas as formas. E nesse instante de felicidade, naturalmente nos esquecemos das dificuldades, daquelas horas onde nos apegamos a nossa fé. Uma fé que sempre repete: tudo há de melhorar. E então, percebemos que nossa vida é como o mar, repleto de ondas, que ora nos levam pra baixo, ora nos levam pra cima. Conseqüentemente, surge a pergunta: existe o mar calmo, sem ondas? Porque para nós, é extremamente fácil ter o impulso para sair de uma situação incômoda, de dor e sofrimento. É o natural. Agarramos-nos aos nossos amuletos, aos nossos mantras e orações, aos nossos mestres, santos e gurus. Mas, e quando a vida nos presenteia com a felicidade extrema, baseada nos acontecimentos do mundo exterior? Brigamos para manter essa sensação pelo maior tempo possível, assim como brigamos para sair do sofrimento. Estamos sempre brigando, as vezes até dispostos a abrir mão de nossos conceitos morais, de nossos deveres para com o bem-estar do outro. E assim, a humanidade se arruína.
Tudo que está a nossa volta, em algum momento, perecerá, ou se transformará. Seja feito de carne, pedra, água ou o que seja. Nascemos sabemos que vamos morrer, essa é nossa informação básica: nosso corpo não é para sempre. Isso é um fato. Então, se tudo no exterior, a nossa volta, está destinado a ruir, onde está o sentido? O sentido maior?
Aí então, temos que lidar e bater de frente com os paradigmas que nos foram sutilmente implantados nesta vida. Devemos nos sentir culpados quando estamos absurdamente felizes? Assim como há aqueles que sucumbem ao sofrimento através da culpa, há os que sucumbem à felicidade através da culpa, e assim, se arruínam da mesma forma. Há os que sucumbem ao sofrimento, assumindo o papel de vítimas da vida. Há os que sucumbem à felicidade, assumindo o papel de felizardos. E assim esquecemos-nos de lembrar que há um lugar que nunca, jamais se separará de nós. Que há um lugar onde podemos repousar o tesouro, sem que ninguém jamais descubra. Esse lugar se chama consciência, nosso interior. Se tudo do lado de fora está fadado inevitavelmente à mudança, por outro lado, nosso interior estará conosco sempre e imune à degradação material. Porque ele não é feito de carne, nem de nada que possa ser considerado de origem material, e assim, não se degenerará. Do que é feito nosso interior, daquilo que pensamos? Imagine: podemos colocar nossa felicidade onde nada pode tocá-la. Um lugar que está conosco onde quer que possamos ir. Esse lugar é nossa consciência. A questão é, para cultivarmos essa felicidade plena, não podemos direcionar totalmente nossos pensamentos para aquilo que pode sofrer degeneração material, por motivos óbvios: essas coisas acabam, somem. E se nossa consciência estiver completamente direcionada para elas, afundará como uma bóia atrelada a uma âncora. Se estivermos voltados para dentro, conscientes da efemeridade de tudo, nada nos afetará. Seguiremos por esta vida apreciando a tudo. Difícil é não se deixar trair pelos nossos sentidos, que são tentáculos sempre ávidos a agarrar aquilo que nos parece real, que nos parece prazeroso. Somo dotados com ferramentas, e a charada é que, depois de muito tentarmos usá-las de milhares de maneiras, descobrimos que não precisamos delas. Descobrimos que aquele parafuso que nunca entra, que nunca se fixa, não está frouxo por nossa culpa. A natureza dele é nunca se fixar. E essa é a imperfeição da vida: a perfeição travestida de imperfeição, perseguida por tantos nos mais vastos confins do mundo, mas misteriosamente guardada dentro de nós. A pergunta que devemos nos fazer é: queremos realmente atrelar nossa felicidade a algo que pode nos fugir a qualquer momento? Por mais belo que seja, por mais prazeroso que seja, por mais lindo que seja, por mais coerente que seja, por mais palpável que seja, por mais valoroso que seja, por mais sensato que seja, por mais atraente que seja, por mais emocionante que seja, por mais intenso que seja, por mais aparente e natural que seja: queremos realmente atrelar nossa felicidade a algo que pode nos fugir a qualquer momento? Por quanto tempo não enxergaremos o que realmente é imutável? Do que temos medo? Ao ler este texto, neste exato momento, reflita: você é completamente feliz? Com tudo que está ao alcance dos seus dois braços agora? Agora! Nem um metro à esquerda, nem à direita, nem um dia à frente, sem que absolutamente nada falte, sem que nenhum outro lugar venha à mente, sem que nenhuma outra pessoa venha a sua mente: o AGORA.
Esse mundo nos foi colocado à disposição. Isto é fato. Mas viemos com um tempo limitado para experimentá-lo. Isto é fato. Sabendo disso, nos agarraremos a ele como referência principal? Não há um dia sequer onde eu não me pergunte onde está a verdadeira felicidade, aquela que não some ao menor sinal de desequilíbrio, ao menor sinal de mudança. Cada vez mais conheço lugares belíssimos no mundo, e estranhamente, passada a sensação inicial de deslumbre, experimentados os torpores da beleza natural, uma força me conduz sempre ao mesmo questionamento, como um imã natural, como se ouvisse uma voz que pergunta suavemente: “Ei, onde você está indo? Estou aqui”.
Paradoxalmente, a palavra que falta neste texto é a que, sozinha, o definiria completamente. Mas, mesmo sem ela, você sabe. E essa é a piada: um homem, navegando num barco, no meio de um grande rio, a morrer de sede, avistou outro barco. E, desesperadamente, remou a seu encontro aos berros: água, água, por favor! O homem no outro barco apenas sorriu, apontando para o rio. Estava lá o tempo todo. Nunca faltou. Sempre achamos que falta algo. Nunca falta. Esqueça a sede e olhe ao redor. Nunca faltou.