Dalcroze e o Yin-yang: o fluir da complementaridade.

harmonia
[Do gr. harmonía.]

Substantivo feminino.
1.Disposição bem ordenada entre as partes de um todo.
2.Proporção, ordem, simetria.
3.Acordo, conformidade.
4.V. paz (1 e 2).
5.Suavidade e sonoridade do estilo.
6.Consonância ou sucessão agradável de sons.
A existência se dá através da relação entre opostos. E imediatamente podemos abrir o foco, para primeiramente, ao invés de visualizarmos a dinâmica do viver com demasiada ênfase nas pontas de onde saem as forças opositivas, passarmos a nos concentrar na noção de equilbrio; em como podemos pensar a oposição dentro de um contexto de complementaridade rotativa, para só depois analisarmos como essa noção recai sobre o ensino da arte(não obstante a esta aplicação, veremos como esse conceito se aplica à tudo que nos cerca, numa espécie de axioma intermitente e expansivo).
No ocidente, particularmente na sociedade moderna, somos levados a encarar o cotidiano como um sobreposição de acontecimentos, embalados por uma visão dicotômica. Fugimos daquilo que representa a tristeza, nos regozijamos com os acontecimentos que traduzem êxito. O paradigma do sucesso foca objetivos com uma obstinação canina e nos leva a perder o contato com peculiaridades essenciais deste mecanismo que abarca oposições de maneira quase esquizofrênica. Mais objetivamente, vejamos conceitos trazidos da cultura oriental, para que possamos traçar um contraponto.
Na cultura chinesa, há o Yin e o Yang, um princípio de dualidade representado por um símbolo que traduz as forças positiva e negativa dentro de uma relação de complementaridade: uma não vive sem a outra.
A roda do Yin-Yang se mantém girando pelo equilibrio entre os opostos. No momento em que uma força se sobrepõe a outra, há uma quebra na harmonização do movimento. O círculo assume um papel simbólico crucial. A Terra se move em circulos, em relação a ela mesma e ao Sol. Todo o universo se move num balé de círculos. Obviamente, quebrar o movimento rotacional da Terra seria catastrófico para a raça humana: romperia o equilibrio dos dias e das noites, do clima e das marés, entre outras coisas com as quais Nostradamuns notadamente lida, mas que aqui não cabe detalhar. O que interessa é transportar esses termos para outros campos, para que analisemos em que proporção nossos atos seguem essa noção de complementaridade harmônica, que quando quebrada, produz colapso. E mais ainda, como podemos inserir este aspecto no ínterim pedagógico, e através dele, promover a quebra de certo paradigmas educacionais de uma forma igualmente harmônica, sem a formação de predominâncias e hegemonias no processo de formação histórica da cultura.
No fim do século XIX, o músico/compositor/educador suíço Emile Dalcroze criou seu método de ensino de ritmo, enquanto observava seu alunos no Conservatório de Genebra. Ele notou que a ênfase na técnica da execução musical traduzia um desequilibrio nos seus alunos, uma falta de proporção entre mente e corpo que gerava tensão corporal e resultado musicais frios, desprovidos de uma carga de escuta interna satisfatória – não levada em conta pelos costumes do ensino musical da época, que visavam o virtuosismo. Dalcroze instituiu um método onde o corpo foi revisto e recolocado no foco do ensino, como veículo legítimo para a obtenção de um resultado humano. Não se trata de educação física, mas de uma educação corporal que visa tornar o ser humano um ser integral, consciente do que pensa enquanto se move, e consciente de que, assim como flui sua movimentação, flui seu pensamento.
Crucial notar: Dalcroze, numa época movida pelos esforços da educação musical em desenvolver a técnica, reconstituiu um idéia de fluxo entre mente e corpo para um objetivo de reconstrução do homem através do movimento, trazendo a idéia de equilibrio entre os aspectos sensoriais, corporais e técnicos como fundamental para formação de artistas capazes de entender a arte como processo ampliador.
E os educadores musicais de agora tem uma tarefa similiar pela frente, inseridos dentro de uma sociedade ocidental tecnicista. Trata-se de um ciclo: reumanizar a arte. Vemos reaparecer o Yin-Yang, o ciclo: como educadores, temos que reconectar os fios que separam o conhecimento do seu real significado humano. Isso não se dará por um processo de abandono dos sistemas, nem da quebra ou do conflito. Se dará pelo mesmo caminho de complementaridade que rege a simbologia chinesa, ou seja, temos que nos apoiar no que há hoje para só então construir a senda da continuidade harmônica, e assim, estabelecer um novo processo educacional não-rivalizador; justamente porque a marcha equilibrada não segue – a roda do Yin-Yang não gira – se houver entrave, quebra, rivalidade. É preciso termos em mente que o fluxo cultural se desenvolve dentro de um sentido histórico, construcional. O que temos que aprender, enquanto educadores, é como fazer andar o manancial histórico da cultura de uma forma harmônica. Não quebrando as pontes entre os opostos para fazer prevalecer uma idéia ou outra, mas justamente refazendo pontes. E uma ponte em especial precisa estar sempre de pé: a ponte que liga o conhecimento ao buscador de conhecimento, o professor ao aluno. Um é uma ponte contínua para o outro, num fluir incessante de conhecimento e cultura. E adicionada a esta imagem de plenitude, está a realidade como fator primordial. Ou seja, no símbolo refeito acima, a linha que separa os lados é feita de dois elementos que precisam andar juntos para sustentar a harmonia: conhecimento e realidade. O aluno precisa estabelecer uma ligação entre aquilo que aprende e sua própria realidade, para que o conhecimento possa surtir efeito e se reverter em movimento, criação(fazendo com que a roda gire). O professor precisa se abrir para a manifestação da realidade que vem dos alunos, para que o conhecimento possa surtir efeito e se reverter em evolução educacional, crescimento, criação(novamente, fazendo que a roda gire).
As ligações que Dalcroze reativou em seu tempo estão transpostas para a atualidade. Temos que estar alertas para o movimento, porque a mudança é a força que rege o mundo. E estas mudanças precisam ser reflexos de deslocamentos cíclicos dentro de um conceito de harmonia, de uma sequência pautada na construção através da ênfase no humano e sobretudo, na noção de que a cultura é uma escada, que precisa ser percorrida com consciência de cada passo. Para que tenhamos a noção de fluxo hârmonico, de que algo se constrói a partir de algo, de que estamos ligados enquanto humanos pelas mesmas leis que regem a Terra, o universo. Não estamos separados do planeta em que vivemos, não estamos fora do universo, nosso corpo não está separado da nossa mente(assim como nos ensinou Dalcroze), nossa arte não está separada do que somos, nossos professores não estão separados da realidade, nossos alunos não estão separados do nosso conhecimento, nada está separado de nada. É nossa tarefa perpetuar a harmonia deste processo a cada dia, cientes de que o fluir se dá por um processo que não rivaliza, mas pondera e reconstrói.
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